Estrada

Ruta 68 de Salta a Cafayate: paradas, vinícolas e dicas para a estrada

por Sarah12 min de leitura
Estrada asfaltada cortando formações de rocha vermelha, como na Ruta 68 entre Salta e Cafayate
Foto: Ignacio Aguilar / Unsplash

A Ruta 68, entre Salta e Cafayate, no noroeste da Argentina, é uma daquelas estradas que fazem a gente dirigir devagar de propósito. Em poucos quilômetros, o verde do vale dá lugar a paredões vermelhos, cânions, dunas e formações de pedra com nome de bicho e de santo. No fim do caminho, uma cidadezinha de vinho de altitude espera com empanadas e sorvete de Torrontés. Neste guia da Ruta 68 de Salta a Cafayate, você vê se vale mais carro ou excursão, as melhores paradas da Quebrada de las Conchas e as vinícolas da cidade.

Como este guia foi feito: reunimos informações de guias especializados em Argentina, reportagens sobre as vinícolas de Cafayate, o site oficial de turismo argentino e relatos de viajantes que fizeram o trajeto de carro e de excursão. Preços e horários mudam bastante na Argentina; confirme antes de ir.

Ruta 68 e Cafayate em resumo

  • Onde fica: província de Salta, noroeste da Argentina, nos Valles Calchaquíes.
  • Distância: cerca de 183 a 190 km entre Salta e Cafayate, uns 2h30 a 3h sem paradas.
  • Destaque da estrada: a Quebrada de las Conchas, com dezenas de quilômetros de formações vermelhas.
  • Destaque da cidade: vinhos de altitude, principalmente o branco Torrontés.
  • Altitude: Cafayate fica a quase 1.700 metros.
  • Melhor época: de abril a novembro, fugindo das chuvas de verão.
  • Quantos dias: dá para fazer bate-volta de Salta, mas o ideal é dormir 1 ou 2 noites em Cafayate.

Por que essa estrada é tão especial

A Ruta 68 é uma das estradas mais bonitas da Argentina e aparece em listas de rotas imperdíveis do país. A primeira parte, saindo de Salta, passa por vales verdes, plantações de tabaco e povoados pequenos. Depois, a paisagem vira outra coisa: entra-se na Quebrada de las Conchas, um corredor de cerca de 80 km onde o rio e o vento esculpiram rochas avermelhadas em formas incríveis.

O nome “Conchas” vem dos fósseis e da origem marinha de parte dessas rochas, que um dia estiveram no fundo de um lago ou mar antigo. Hoje, o que se vê são camadas de vermelho, laranja, rosa, verde e branco, que mudam conforme a hora do dia. É por isso que muita gente diz que é a estrada que muda de cor a cada curva.

E no fim de tudo está Cafayate, uma cidade pequena, de casas baixas e praça arborizada, cercada de vinhedos a mais de 1.500 metros de altitude. Estrada, deserto, comida regional e vinho: dá para entender por que está no Orbitando.

Como chegar em Salta

Salta é a porta de entrada. Do Brasil, o caminho mais comum é voar até Buenos Aires e pegar um voo doméstico até Salta, com cerca de 2 horas de duração. Em algumas épocas há voos com conexão mais direta; vale pesquisar. Cafayate tem um aeroporto pequeno, mas só recebe voos particulares.

Carro alugado ou excursão?

Essa é a grande decisão da viagem, e as duas opções têm vantagens:

Carro alugado

  • Liberdade total para parar onde quiser, pelo tempo que quiser.
  • Dá para chegar cedo nas formações, com luz bonita e sem ônibus de excursão.
  • A estrada é asfaltada e bem sinalizada na maior parte do trajeto.
  • O ponto negativo: quem dirige não pode aproveitar as degustações nas vinícolas.

Excursão saindo de Salta

  • Inclui transporte, guia (muitas vezes bilíngue) e paradas nos pontos principais.
  • Ninguém precisa dirigir, então todo mundo pode provar vinho.
  • É um dia longo: a excursão típica dura cerca de 12 horas, saindo de manhã cedo e voltando no começo da noite.
  • O ponto negativo: menos tempo em cada parada e paradas lotadas nos horários de pico.

Nossa sugestão: se der, alugue carro e durma uma ou duas noites em Cafayate. Assim você faz a estrada com calma na ida, aproveita as vinícolas a pé na cidade e ainda pega o fim de tarde na Quebrada. Guias especializados recomendam essa mesma estratégia.

Paisagem desértica com montanhas, perto de Cafayate
Paisagem desértica com montanhas, perto de Cafayate. Foto: Nicolás Flor / Unsplash

Paradas da Ruta 68: o que ver no caminho

As formações estão sinalizadas na beira da estrada, com pequenos estacionamentos. A maioria pede só uma caminhada curta. Guias de viagem sugerem escolher 4 ou 5 paradas para não transformar o dia numa maratona.

Povoados do vale

Saindo de Salta, você passa por Cerrillos, La Merced, El Carril, Coronel Moldes e La Viña. La Viña aparece em guias como um dos últimos lugares com posto de combustível antes da Quebrada, então abasteça em Salta ou ali.

Posta de las Cabras

Uma parada clássica no caminho, conhecida pelo queijo de cabra artesanal, doces regionais e empanadas. Ótima para o café da manhã reforçado ou um lanche.

Garganta del Diablo

Uma enorme fenda na rocha que você pode explorar a pé, entrando entre paredes altíssimas de pedra vermelha. É uma das paradas mais impressionantes e mais fotografadas.

El Anfiteatro

Um paredão em forma de semicírculo, quase fechado, com acústica impressionante. É comum encontrar músicos tocando violão, flauta ou charango lá dentro, e o som ecoa de um jeito que arrepia. Leve trocados se quiser contribuir com os artistas.

Los Castillos, El Sapo, El Fraile e El Obispo

Formações que lembram castelos, um sapo, um frade e um bispo. Algumas exigem imaginação, outras são assustadoramente parecidas. São paradas rápidas, boas para fotos.

Las Ventanas

Aberturas naturais na rocha que funcionam como janelas para a paisagem. Uma das paradas mais fotogênicas no fim da tarde.

Los Médanos

Perto de Cafayate, aparecem dunas de areia clara, um contraste curioso com os paredões vermelhos. Ótimo lugar para tirar os sapatos e caminhar um pouco.

Diário da Alvorada: a melhor luz da Quebrada

A cor das rochas muda muito ao longo do dia. Guias recomendam sair de Salta por volta das 8h para pegar luz boa e sol menos forte. Mas, se você estiver dormindo em Cafayate, tem um privilégio: dirigir até a Quebrada de las Conchas logo cedo, antes das excursões chegarem.

  • Com o sol baixo, o vermelho fica mais intenso e as sombras desenham as formações.
  • O deserto amanhece frio, mesmo no verão. Leve casaco e café na garrafa térmica.
  • Combine o nascer do sol na estrada com um café da manhã na Posta de las Cabras, se o horário bater.
  • Repita no fim da tarde: o pôr do sol na Quebrada pinta tudo de laranja e rosa.

Cafayate: o que fazer na cidade

Cafayate é pequena e dá para conhecer o centro a pé. Tem praça central com igreja, ruas tranquilas, lojinhas de artesanato e várias vinícolas a poucas quadras umas das outras.

Sorvete de vinho

Na praça fica a sorveteria Helados Miranda, famosa pelos sorvetes de Torrontés e de Cabernet. Guias de viagem dizem que é parada obrigatória, e quase todo viajante concorda.

Museu do Vinho

O Museo de la Vid y el Vino conta a história da produção de vinho na região e ajuda a entender por que os vinhos de altitude de Cafayate são tão diferentes.

Artesanato e feirinhas

Mantas, tecidos, cerâmica e peças de prata dos Valles Calchaquíes aparecem nas lojas ao redor da praça. Bom lugar para lembrancinhas que não são vinho.

As vinícolas de Cafayate

Os vinhedos da região ficam acima de 1.500 metros, em alguns casos passando de 2.000 e até 3.000 metros. A insolação forte, o clima desértico e a altitude geram uvas de casca grossa e concentradas, que resultam em vinhos encorpados e cheios de cor. As castas mais presentes são Malbec, Cabernet Sauvignon, Syrah, Tannat e, claro, o Torrontés, um branco aromático considerado a assinatura da região.

No centro, a pé

  • Vasija Secreta: considerada a vinícola mais antiga de Cafayate, num prédio colonial na entrada da cidade. A visita à bodega e ao museu é gratuita e sem reserva; as degustações são pagas.
  • Nanni: perto da praça, família que produz vinho há quatro gerações, com destaque para vinhos orgânicos e um pequeno restaurante.
  • El Tránsito: moderna e pequena, no centro, boa para degustar e comprar vinhos de altitude.
  • El Esteco: numa propriedade colonial do fim do século XIX, com degustações, visitas noturnas com fogueira e cavalgadas pelos vinhedos em alguns dias.

Um pouco mais longe

  • Domingo Molina: a cerca de 8 km da cidade, com vinhedos entre 1.600 e 2.300 metros e paisagens lindas.
  • Finca Las Nubes: vinhedos a cerca de 1.800 metros, visitas guiadas com reserva e almoço com empanadas, tamales e humitas.
  • Yacochuya: da família Etchart, com visitas guiadas e degustações.
  • El Porvenir: bodega no centro e fincas próximas, com piqueniques nos vinhedos e até aula de empanadas.
  • Colomé: mais distante, em Molinos, apontada como a vinícola em produção contínua mais antiga da Argentina, com vinhedos a mais de 3.000 metros e um museu de arte. Exige uma viagem à parte.

Algumas vinícolas só recebem visitantes com reserva, então agende com antecedência, principalmente em feriados argentinos.

Onde comer

A comida dos Valles Calchaquíes é um capítulo à parte: empanadas salteñas (pequenas e suculentas), humitas (pasta de milho no milho), tamales, locro (ensopado de milho, feijão e carne) e queijo de cabra. Guias recomendam a Casa de las Empanadas para provar várias de uma vez, e restaurantes de bodegas como o Bad Brothers, que serve vinhos por taça. Combine o almoço com uma visita a vinícola e você terá a tarde perfeita.

Onde dormir

Dormir em Cafayate muda a viagem. A cidade tem desde hostels e pousadas simples perto da praça até hotéis dentro de vinícolas, como o Patios de Cafayate, ligado à El Esteco, e o La Casa de la Bodega. Ficar no centro permite fazer tudo a pé, inclusive as degustações, sem se preocupar com o carro.

Quando ir

  • Abril a novembro: período considerado mais indicado, com céu limpo e estradas sem risco de chuva. Os dias são ensolarados e as noites, frias.
  • Dezembro a março: é o verão chuvoso. As chuvas podem bloquear trechos da estrada, e guias desaconselham o bate-volta nessa época.
  • Vindima: em certas épocas, algumas vinícolas permitem acompanhar a colheita e provar vinho direto dos tanques. Pergunte ao reservar.

Quanto custa: o que considerar

Preços na Argentina mudam rápido por causa da inflação e do câmbio. Em vez de valores, segue o que entra no orçamento:

Item Observação
Voo até Salta geralmente com conexão em Buenos Aires
Carro alugado ou excursão excursão costuma ser cobrada por pessoa; carro compensa para 3 ou 4 pessoas
Degustações algumas visitas são gratuitas, mas a maioria das degustações é paga
Combustível abasteça em Salta; postos são raros no caminho
Dinheiro vivo leve pesos em espécie para paradas pequenas e artistas de rua

O que dizem os visitantes

  • A estrada é o passeio: muita gente diz que a Ruta 68 é um dos trajetos mais bonitos que já fez, e que vale mais do que o destino.
  • O Anfiteatro arrepia: a música ecoando no paredão é lembrada como um momento mágico.
  • Bate-volta cansa: quem faz Salta–Cafayate–Salta no mesmo dia comenta que é muito tempo de van e pouco tempo em cada lugar.
  • Cafayate surpreende: a cidade é descrita como charmosa, tranquila e com vinhos excelentes por preços bons.
  • Altitude e sol pesam: o sol do deserto é forte, e o vinho sobe mais rápido na altitude.

Roteiro sugerido de 2 dias

Dia 1 — Ruta 68: saia de Salta por volta das 8h. Lanche na Posta de las Cabras, depois Garganta del Diablo, Anfiteatro, Los Castillos e Las Ventanas. Chegue a Cafayate à tarde, faça check-in e tome sorvete de vinho na praça. Jantar com empanadas e Torrontés.

Dia 2 — Vinho e volta: manhã de vinícolas a pé no centro, almoço numa bodega e volta para Salta no meio da tarde, parando em Los Médanos e em alguma formação que ficou faltando, com a luz do fim de tarde.

Com um terceiro dia, siga pelos Valles Calchaquíes até Molinos e Colomé, ou pela famosa Ruta 40.

Dicas rápidas

  • Protetor solar, chapéu, óculos e pelo menos 2 litros de água por pessoa.
  • Casaco mesmo no calor: as noites são frias.
  • Baixe o mapa offline; o sinal é fraco em boa parte do trajeto.
  • Abasteça em Salta.
  • Reserve vinícolas com antecedência.
  • Beba com moderação: a quase 1.700 metros, o álcool faz mais efeito.
  • Tênis confortável para as trilhas curtas nas formações.

Perguntas frequentes

Brasileiro pode dirigir na Argentina?

Em geral, a carteira de motorista brasileira é aceita para turistas no Mercosul. Confirme as exigências atuais com a locadora.

A estrada é perigosa?

É asfaltada e bem sinalizada. O cuidado maior é com curvas, animais na pista e a temporada de chuvas.

Vale mais a pena excursão ou carro?

Excursão é prática e permite beber. Carro dá liberdade e luz melhor nas formações. Se puder dormir em Cafayate, o carro ganha.

Vale a pena?

A Ruta 68 é viagem de estrada no seu melhor: paisagens que não parecem reais, paradas que pedem silêncio, música ecoando no paredão e, no fim, uma taça de Torrontés gelado numa pracinha do interior argentino. Vá devagar, durma em Cafayate e acorde cedo para ver a Quebrada acender.

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